Jovem boliviana de 20 anos recebeu a substância experimental após sofrer uma lesão medular em acidente doméstico ocorrido em Vargem Grande do Sul
A aplicação de polilaminina na Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros marcou um procedimento inédito na instituição de São João da Boa Vista. Na manhã de domingo, 5 de julho de 2026, uma jovem boliviana de 20 anos recebeu a substância experimental após ficar paraplégica em decorrência de um acidente doméstico ocorrido em Vargem Grande do Sul.
A paciente estava em viagem ao Brasil quando sofreu o acidente. Após o atendimento inicial, ela foi encaminhada à Santa Casa de São João da Boa Vista, onde permanece internada por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).
O hospital atende pacientes de diferentes municípios da região e conta com serviço especializado em neurocirurgia. Além disso, a instituição presta grande parte de seus atendimentos pelo sistema público de saúde.
O procedimento foi conduzido pelo neurocirurgião Bruno Côrtes, que veio do Rio de Janeiro para realizar a aplicação. Também acompanharam a intervenção o neurocirurgião Antonio Baroni e a equipe do centro cirúrgico da Santa Casa.
Substância busca favorecer conexões nervosas
A polilaminina é uma versão polimerizada da laminina, proteína encontrada naturalmente no organismo humano. Conforme informações dos pesquisadores, a substância forma uma espécie de estrutura de suporte que pode favorecer o crescimento e a reconexão dos prolongamentos dos neurônios atingidos pela lesão.
Durante a explicação sobre o procedimento, Bruno Côrtes comparou a atuação da substância a um caminho capaz de orientar o crescimento dos neurônios.
“Essa proteína funciona como se fosse um trilho no crescimento do neurônio. O nosso neurônio cresce, só que ele não consegue avançar porque no tecido nervoso adulto não existe a laminina. Então, a gente vai injetar a laminina polimerizada para dar um trilho, um caminho para o neurônio crescer e tentar se reconectar e haver uma melhora neurológica. E depois vai se seguir uma fisioterapia intensa”, explicou.
Entretanto, a aplicação não garante a recuperação dos movimentos. A polilaminina continua sendo uma substância experimental, e a resposta pode variar de um paciente para outro.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início do estudo clínico de fase 1 da substância. Essa etapa tem como objetivo principal avaliar a segurança do uso em seres humanos com trauma raquimedular agudo.
Portanto, a autorização concedida pela Anvisa refere-se à realização da pesquisa clínica e não representa o registro da polilaminina como medicamento ou sua liberação para uso terapêutico rotineiro.
Mais informações sobre o estágio regulatório estão disponíveis no portal oficial da Anvisa:
Seleção depende dos pesquisadores
Segundo a Santa Casa, os critérios de elegibilidade para receber a substância são definidos exclusivamente pelos responsáveis pela pesquisa. Dessa forma, o hospital não escolhe os pacientes e não determina quem poderá participar do tratamento experimental.
No caso da jovem boliviana, a equipe da instituição encaminhou as informações clínicas aos pesquisadores. Em seguida, os responsáveis avaliaram o quadro e aceitaram a paciente para o procedimento.
O release não informa quando ocorreu o acidente nem o intervalo entre a lesão medular e a aplicação. Entretanto, o Laboratório Cristália afirma que a janela considerada ideal para a administração da substância é de até 72 horas depois da identificação da lesão.
Após a aplicação, a paciente deverá passar por um processo intenso de fisioterapia. Ao mesmo tempo, a equipe médica continuará acompanhando sua evolução clínica e neurológica.
Pesquisa começou há mais de duas décadas
O desenvolvimento da polilaminina começou há mais de 20 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a coordenação da professora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio e de sua equipe.
A pesquisadora atua no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e coordena estudos relacionados à matriz extracelular e à regeneração do sistema nervoso.
Em 2018, o Laboratório Cristália conheceu o projeto. Posteriormente, em 2021, a empresa firmou uma parceria com a universidade para colaborar com o desenvolvimento tecnológico e a produção da substância em maior escala.
Atualmente, a polilaminina permanece em fase de pesquisa. Por isso, os pesquisadores ainda precisam concluir diferentes etapas dos estudos clínicos antes que seja possível avaliar seu registro como medicamento.
Resultados devem ser interpretados com cautela
Ao falar sobre as perspectivas de recuperação, Bruno Côrtes citou dados de uma meta-análise internacional e resultados observados pelo grupo envolvido na pesquisa.
“A gente tem um estudo mundial, uma meta-análise de mil pacientes com lesão completa e lesão incompleta com 6,5% de melhora espontânea. O nosso grupo de estudo, que compreende mais ou menos 100 pacientes, está entre 70% e 75% de melhora. Então, a gente saltou de 6,5% para 70% de melhora”, declarou.
Os dados foram apresentados pelo médico durante a manifestação sobre o procedimento. No entanto, o release não identifica o estudo científico citado nem detalha os critérios utilizados para classificar a melhora dos pacientes.
Além disso, a fase 1 de um estudo clínico tem como foco principal a avaliação da segurança. A análise mais ampla da eficácia costuma ocorrer nas etapas posteriores da pesquisa.
Dessa forma, os resultados iniciais não devem ser interpretados como garantia de recuperação ou comprovação definitiva de que a substância possa fazer uma pessoa voltar a andar.
Procedimento representa marco para a Santa Casa
Para o provedor da Santa Casa, Marcio Roberto Franciolli, a realização do procedimento representa um momento histórico para o hospital de São João da Boa Vista.
“Esperamos que esse tratamento traga uma nova oportunidade para essa jovem recuperar seus movimentos. É um momento histórico para a Santa Casa”, afirmou.
Franciolli também agradeceu aos profissionais e às instituições envolvidos na aplicação.
“Agradeço a toda equipe do Dr. Bruno Côrtes, equipe da Santa Casa, Dr. Antonio Baroni, Dr. João Buçard, Dra. Patrícia, Cíntia Mometti, Messa Oliveira e Laboratório Cristália. Deus permita que essa jovem volte a andar”, concluiu.
A Santa Casa de Misericórdia Dona Carolina Malheiros está localizada na Rua Carolina Malheiros, nº 92, na Vila Conrado, em São João da Boa Vista.
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