Paineira que marcou gerações é derrubada e vira alvo de mobilização em Águas da Prata

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Rafael Arcuri
Rafael Arcuri
Rafael é o fundador e responsável pelo Jornal Fala São João, presente desde sua criação em 2012. Com uma atuação destacada no jornalismo, Rafael já publicou mais de 6.000 artigos, cobrindo uma ampla gama de assuntos, como notícias de última hora, ocorrências policiais e análises políticas, sempre comprometido em informar e conectar a comunidade de São João da Boa Vista e região.

Moradores questionam retirada de árvore de aproximadamente 80 anos na Fonte Platina e reivindicam acesso ao laudo, perícia independente e mudanças na política de arborização do município

A derrubada de uma paineira-rosa de grande porte no bairro Fonte Platina, em Águas da Prata (SP), passou a mobilizar moradores e ambientalistas nas últimas semanas. A árvore foi retirada no dia 22 de agosto de 2026 e, segundo integrantes do movimento Águas da Prata Viva, teria aproximadamente 80 anos, fazendo parte da paisagem e da memória do bairro havia décadas.

A mobilização resultou em um abaixo-assinado que, segundo os organizadores, já reúne mais de 600 adesões e cobra esclarecimentos sobre os critérios utilizados para autorizar a supressão da árvore.

Entre os principais pedidos estão a divulgação integral dos documentos técnicos que embasaram a decisão, a preservação do toco e das toras para eventual perícia independente e a adoção de procedimentos mais transparentes para futuras intervenções na arborização urbana.

Prefeitura afirma que árvore apresentava risco

Em comunicado divulgado no próprio dia da operação, a Prefeitura de Águas da Prata apresentou uma versão diferente sobre as condições da paineira.

Segundo o município, a remoção ocorreu após uma vistoria técnica da Defesa Civil que teria identificado alto risco de queda, considerando o porte da árvore, sua localização próxima à rede elétrica e problemas estruturais.

A Prefeitura informou ainda que havia sinais de apodrecimento severo em partes dos galhos e da raiz.

De acordo com a administração municipal, a paineira possuía mais de 35 metros de altura, e a retirada mobilizou equipes da Secretaria de Obras, do Departamento de Trânsito e da concessionária Elektro, além do uso de máquinas pesadas.

Durante os trabalhos, um trecho da Estrada Municipal Hélio Bertolucci operou no sistema de “pare e siga”.

Moradores contestam justificativa e pedem documentação

Os integrantes da mobilização não contestam a necessidade de retirada de árvores que apresentem risco comprovado à população. O questionamento está concentrado na documentação e nos critérios técnicos utilizados para determinar que a remoção completa seria necessária.

Segundo o movimento, análises posteriores realizadas por uma equipe externa teriam apontado características aparentemente preservadas na madeira remanescente, sem sinais visíveis de grandes cavidades ou deterioração generalizada do tronco.

Os moradores também utilizam fotografias anteriores ao corte para argumentar que a árvore apresentava copa ampla e floração regular.

Essas observações, entretanto, não substituem uma avaliação técnica da estrutura interna de uma árvore. Uma árvore pode apresentar copa aparentemente saudável e ainda possuir problemas estruturais em raízes, tronco ou galhos.

É justamente por esse motivo que o grupo reivindica acesso aos documentos que fundamentaram a decisão.

Câmara cobra cópia do laudo técnico

O questionamento já chegou oficialmente à Câmara Municipal de Águas da Prata.

O Requerimento nº 76/2026, de autoria do vereador Luiz Alberto Teixeira Ferreira, solicita que o Poder Executivo encaminhe ao Legislativo a cópia integral do laudo técnico fitossanitário relacionado à supressão da paineira.

O documento também pede identificação, assinatura e registro profissional do responsável pela avaliação, além de cópia da ordem de serviço ou documento administrativo que determinou a execução do corte pela Prefeitura ou Defesa Civil.

Segundo o portal oficial da Câmara, o requerimento foi aprovado.

Movimento pede perícia independente

Outra reivindicação é a preservação do toco e das toras remanescentes até que seja possível realizar uma perícia técnica independente.

A intenção dos moradores é permitir que especialistas examinem as condições da madeira e, quando tecnicamente possível, obtenham informações adicionais sobre a idade e o histórico do exemplar.

O abaixo-assinado divulgado pelo movimento também reivindica acesso a documentos como processo administrativo, laudo ou parecer técnico, eventual ART ou documento equivalente de responsabilidade profissional, autorização para supressão, ordem de serviço, registros da Defesa Civil e definição de eventual compensação ambiental.

A petição pública afirma ainda que os moradores defendem a análise de alternativas antes da retirada completa de árvores consideradas relevantes para a paisagem urbana.

Paineira fazia parte da paisagem da Fonte Platina

Segundo os organizadores, a árvore possuía uma copa estimada em cerca de 23 metros de diâmetro e era conhecida principalmente pela intensa floração rosada.

Moradores relatam que a paineira funcionava como um ponto de referência na entrada da Fonte Platina e tinha valor afetivo para pessoas que acompanham há décadas as transformações do bairro.

Além do aspecto paisagístico, árvores adultas de grande porte exercem funções ambientais importantes no ambiente urbano, contribuindo para sombreamento, redução da temperatura superficial, retenção de partículas, abrigo para animais e infiltração da água no solo.

Para o movimento, é justamente o tempo necessário para que uma nova árvore alcance porte semelhante que torna necessária uma discussão sobre compensação ambiental proporcional.

Mobilização quer mudanças para futuros cortes

A discussão não está limitada à paineira retirada em agosto.

O movimento Águas da Prata Viva propõe a criação de mecanismos públicos de acompanhamento das solicitações de poda e corte de árvores no município.

Entre as propostas estão um cadastro público on-line de pedidos e autorizações, divulgação antecipada de determinadas intervenções, avaliação documentada de alternativas ao corte e instrumentos de proteção para exemplares considerados relevantes sob os aspectos ambiental, histórico ou paisagístico.

Também é defendida uma compensação ambiental proporcional ao porte da árvore retirada, com acompanhamento das mudas plantadas posteriormente.

“Não somos contra a segurança das pessoas. Somos a favor dela. Árvore que oferece risco real precisa ser manejada e, em determinadas situações, removida. O que pedimos é que esse risco seja demonstrado tecnicamente”, afirmam os organizadores da mobilização.

Debate chega à Tribuna da Comunidade

O assunto deverá voltar ao debate público na segunda-feira, 14 de setembro, quando integrantes da mobilização pretendem utilizar a Tribuna da Comunidade, na Câmara Municipal de Águas da Prata.

A participação está prevista para as 18h30.

A expectativa é apresentar os questionamentos sobre a derrubada da paineira, solicitar esclarecimentos sobre os documentos técnicos e defender mudanças nos procedimentos municipais relacionados à arborização.

O episódio acontece em uma cidade cuja paisagem natural está diretamente ligada à sua identidade turística. Recentemente, por exemplo, o próprio município teve o voo livre reconhecido como patrimônio cultural e turístico, reforçando a relação de Águas da Prata com seus recursos naturais e sua paisagem.

Leia também no Fala São João: Voo livre é reconhecido como patrimônio cultural e turístico de Águas da Prata

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