O suicídio não afeta apenas quem morre. Familiares, filhos, parceiros, amigos e colegas também enfrentam um processo de luto marcado por culpa, raiva, busca por respostas, estigma e, muitas vezes, isolamento.
Em entrevista ao Fala São João, a psicóloga Jacqueline Lucas aborda os impactos do suicídio na vida de quem fica, explica particularidades desse tipo de luto e reforça a importância do acolhimento e da busca por ajuda profissional.
A seguir, a entrevista é publicada na íntegra.
E quem fica? Os impactos do suicídio na vida de familiares, filhos, parceiros e amigos.
A perda de um ente querido por suicídio gera um impacto emocional complexo e profundo. Quem fica — frequentemente chamados de sobreviventes do enlutamento por suicídio — enfrenta um processo de luto diferente daquele provocado por causas naturais ou acidentais, marcado por sentimentos intensos e muitas vezes contraditórios.
As reações e etapas emocionais mais frequentes entre familiares, amigos e colegas são:
Culpa e Remorso (“E se…?”): A busca por sinais não percebidos é constante. É muito comum surgir o sentimento de responsabilidade pessoal — a sensação de que “eu deveria ter percebido”, “poderia ter feito mais” ou “deveria ter evitado”.
Raiva e Revoltada: Sentimentos de raiva podem surgir direcionados a diversos alvos: à própria pessoa que faleceu (por ter tomado essa decisão ou por ter deixado essa dor), a profissionais de saúde, a outros familiares ou até a Deus/universo. Essa raiva costuma vir acompanhada de profunda confusão.
Negação do Sofrimento da Vítima: Para tentar assimilar a tragédia, algumas pessoas passam a minimizar, invalidar ou deturpar a dor que a vítima enfrentava (pensamentos como “isso foi fraqueza”, “ela tinha tudo”, “foi egoísmo”). Essa é frequentemente uma defesa psicológica involuntária para tentar encontrar uma explicação lógica para algo extremamente chocante.
Vergonha e Estigma Social: O tabu associado ao suicídio faz com que muitos sobreviventes se isolem por medo do julgamento alheio, fofocas ou culpabilização pela sociedade.
Busca Exaustiva por Respostas: A necessidade de compreender o “porquê” torna-se central no início do luto. A ausência de respostas claras pode gerar um ciclo interminável de questionamentos.
Impacto na Saúde Mental dos Sobreviventes: A dor intensa pode evoluir para sintomas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático (TEPT) e, em alguns casos, o aumento do risco do próprio ideação suicida entre os enlutados.
1) O que costuma acontecer emocionalmente com familiares e amigos após a perda de alguém por suicídio?
Perder alguém para o suicídio transforma radicalmente a vida de familiares e amigos. Junto com a dor da perda inesperada, surgem sentimentos difíceis de processar: a culpa constante do ‘e se eu tivesse feito diferente?’, a raiva e a incompreensão. Muitas vezes, para tentar suportar essa dor, as pessoas acabam julgando ou deturpando o sofrimento que a vítima viveu, tornando o processo de cura ainda mais complexo para todos.
2) Por que sentimentos como culpa, raiva e a busca por respostas são tão comuns entre as pessoas que ficam?
Perder alguém assim causa um choque tão profundo que a mente humana tenta desesperadamente achar uma explicação. A culpa nasce do pensamento doloroso de ‘como eu não vi os sinais a tempo?’. Ou seja, a ilusão do viés de controle, quando a pessoa olha para trás, pensa que os pequenos sinais pareciam óbvios, e o cérebro faz acreditar erroneamente que poderia ter previsto o resultado.
A busca por respostas é a tentativa de entender o tamanho do sofrimento que a pessoa carregava. Ou seja, A necessidade de sentido: A mente humana não tolera a falta de respostas em eventos traumáticos, fazendo com que a pessoa revise memórias incansavelmente em busca de um “porquê”.
E a raiva nada mais é do que a dor e a impotência se transformando em indignação por não ter conseguido evitar essa tragédia. A impotência que vira raiva: A raiva surge quando a dor é grande demais para ser suportada passivamente; ela é uma forma de descarregar a frustração de não ter conseguido mudar o desfecho.
3) O preconceito e o silêncio em torno do suicídio podem tornar esse processo de luto ainda mais doloroso?
Sim, o preconceito e o silêncio agravam profundamente a dor do luto por suicídio.
Por ser um tema cercado de tabus e estigmas negativos, a morte por suicídio gera barreiras únicas para os enlutados. Em vez de encontrarem acolhimento, familiares e amigos frequentemente enfrentam o julgamento social, a culpa e a falta de sensibilidade.
Esse cenário de incompreensão leva muitas pessoas a se isolarem do convívio social para evitar especulações indesejadas e proteger sua privacidade.
Dessa forma, o silêncio e o preconceito privam os enlutados da rede de apoio necessária, tornando o processo de assimilação da perda ainda mais solitário, complexo e doloroso.
4) O luto por suicídio apresenta características diferentes de outros tipos de luto?
Sim, o luto por suicídio é reconhecido por suas particularidades e por sua grande complexidade.
Como se trata de uma perda inesperada e violenta, o processo de assimilação é especialmente doloroso para os sobreviventes. É comum que os familiares e amigos enfrentem um turbilhão de emoções — como culpa, vergonha, raiva e isolamento social —, além do constante questionamento sobre o que poderia ter sido feito para evitar a tragédia. Por esses fatores, esse tipo de luto exige um olhar cuidadoso e acolhedor, pois pode trazer desdobramentos graves para a saúde física e emocional de quem fica.
5) Como familiares e amigos podem acolher alguém que esteja enfrentando essa perda?
A melhor forma de acolher alguém no luto é oferecer uma escuta empática e sem julgamentos. Muitas vezes, a pessoa enlutada não precisa de conselhos ou opiniões — o peso da perda já é grande demais. O que ela realmente necessita é de um “ouvido amigo”, alguém pronto para ouvir o que quer que ela esteja sentindo.
Para aqueles que preferem silenciar e não expor suas emoções, o mais importante é manter a presença constante: fazer com que saibam que não estão sós e que há pessoas por perto prontas para ajudar no que for preciso para atravessar esse momento desafiador.
6) Em quais situações é importante procurar acompanhamento psicológico ou outro tipo de ajuda profissional?
O acompanhamento psicológico ou profissional é importante em qualquer momento em que a vida passa por transições complexas — sejam elas mudanças positivas ou situações de dor.
* Transições e mudanças de vida: Eventos positivos como a chegada de um filho, um novo emprego ou uma grande mudança também geram ansiedade e incertezas sobre o futuro.
* Processos de perda e luto: Vivenciar perdas, angústias profundas ou sentimentos paralisantes por períodos prolongados requer suporte especializado. O luto impacta famílias inteiras e, muitas vezes, as pessoas se afastam não por preconceito, mas por não saberem como agir sem reabrir feridas.
* Posvenção do suicídio: Para amigos e familiares que enfrentam o impacto do suicídio de alguém próximo, o suporte multiprofissional (posvenção) é fundamental para acolher o sofrimento e auxiliar no processo de reconstrução, embora ainda seja uma área que necessita de mais estudos e visibilidade.
7) Que mensagem você deixaria para quem perdeu alguém por suicídio e ainda está tentando reconstruir a própria vida?
É importante racionalizar que não há um culpado. O fato de perder alguém para o suicídio remete a um luto singular. Há alguns “porquês” que permanecerão sem resposta.
Não sinta culpa em querer reconstruir a vida, isso não significa “superar” ou esquecer, mas aprender a carregar essa saudade sem esse peso doloroso.
Como você gostaria de honrar a vida?
E lembre-se: Você não está Sozinho(a), procure ajuda.
Canais de ajuda:
Centro de Valorização a Vida (CVV) disque 188 ou entre via chat: cvv.org.br
Apoio emocional para jovens de 13 a 24 anos: podefalar.org.br
Polícia Civil e Militar, Centros de Referências Sociais, Corpo de Bombeiros, UPA, UBS, CAPS possuem pessoas especializadas para o primeiro atendimento/acolhimento a pessoas que estão sofrendo psiquicamente com a tentativa de autoextermínio.
Citação pela APA
Ruckert,M.L.T., Frizzo, R.P.,& Rigoli, M.M. (2019). Suicídio: a importância de novos estudos de posvenção no Brasil.
Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 15 (2), 85-91.

