E quem fica? Psicóloga Jacqueline Lucas fala sobre os impactos do suicídio em familiares e amigos

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Rafael Arcuri
Rafael Arcuri
Rafael é o fundador e responsável pelo Jornal Fala São João, presente desde sua criação em 2012. Com uma atuação destacada no jornalismo, Rafael já publicou mais de 6.000 artigos, cobrindo uma ampla gama de assuntos, como notícias de última hora, ocorrências policiais e análises políticas, sempre comprometido em informar e conectar a comunidade de São João da Boa Vista e região.

O suicídio não afeta apenas quem morre. Familiares, filhos, parceiros, amigos e colegas também enfrentam um processo de luto marcado por culpa, raiva, busca por respostas, estigma e, muitas vezes, isolamento.

Em entrevista ao Fala São João, a psicóloga Jacqueline Lucas aborda os impactos do suicídio na vida de quem fica, explica particularidades desse tipo de luto e reforça a importância do acolhimento e da busca por ajuda profissional.

A seguir, a entrevista é publicada na íntegra.


E quem fica? Os impactos do suicídio na vida de familiares, filhos, parceiros e amigos.

A perda de um ente querido por suicídio gera um impacto emocional complexo e profundo. Quem fica — frequentemente chamados de sobreviventes do enlutamento por suicídio — enfrenta um processo de luto diferente daquele provocado por causas naturais ou acidentais, marcado por sentimentos intensos e muitas vezes contraditórios.

As reações e etapas emocionais mais frequentes entre familiares, amigos e colegas são:

Culpa e Remorso (“E se…?”): A busca por sinais não percebidos é constante. É muito comum surgir o sentimento de responsabilidade pessoal — a sensação de que “eu deveria ter percebido”, “poderia ter feito mais” ou “deveria ter evitado”.

Raiva e Revoltada: Sentimentos de raiva podem surgir direcionados a diversos alvos: à própria pessoa que faleceu (por ter tomado essa decisão ou por ter deixado essa dor), a profissionais de saúde, a outros familiares ou até a Deus/universo. Essa raiva costuma vir acompanhada de profunda confusão.

Negação do Sofrimento da Vítima: Para tentar assimilar a tragédia, algumas pessoas passam a minimizar, invalidar ou deturpar a dor que a vítima enfrentava (pensamentos como “isso foi fraqueza”, “ela tinha tudo”, “foi egoísmo”). Essa é frequentemente uma defesa psicológica involuntária para tentar encontrar uma explicação lógica para algo extremamente chocante.

Vergonha e Estigma Social: O tabu associado ao suicídio faz com que muitos sobreviventes se isolem por medo do julgamento alheio, fofocas ou culpabilização pela sociedade.

Busca Exaustiva por Respostas: A necessidade de compreender o “porquê” torna-se central no início do luto. A ausência de respostas claras pode gerar um ciclo interminável de questionamentos.

Impacto na Saúde Mental dos Sobreviventes: A dor intensa pode evoluir para sintomas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático (TEPT) e, em alguns casos, o aumento do risco do próprio ideação suicida entre os enlutados.


1) O que costuma acontecer emocionalmente com familiares e amigos após a perda de alguém por suicídio?

Perder alguém para o suicídio transforma radicalmente a vida de familiares e amigos. Junto com a dor da perda inesperada, surgem sentimentos difíceis de processar: a culpa constante do ‘e se eu tivesse feito diferente?’, a raiva e a incompreensão. Muitas vezes, para tentar suportar essa dor, as pessoas acabam julgando ou deturpando o sofrimento que a vítima viveu, tornando o processo de cura ainda mais complexo para todos.

2) Por que sentimentos como culpa, raiva e a busca por respostas são tão comuns entre as pessoas que ficam?

Perder alguém assim causa um choque tão profundo que a mente humana tenta desesperadamente achar uma explicação. A culpa nasce do pensamento doloroso de ‘como eu não vi os sinais a tempo?’. Ou seja, a ilusão do viés de controle, quando a pessoa olha para trás, pensa que os pequenos sinais pareciam óbvios, e o cérebro faz acreditar erroneamente que poderia ter previsto o resultado.

A busca por respostas é a tentativa de entender o tamanho do sofrimento que a pessoa carregava. Ou seja, A necessidade de sentido: A mente humana não tolera a falta de respostas em eventos traumáticos, fazendo com que a pessoa revise memórias incansavelmente em busca de um “porquê”.

E a raiva nada mais é do que a dor e a impotência se transformando em indignação por não ter conseguido evitar essa tragédia. A impotência que vira raiva: A raiva surge quando a dor é grande demais para ser suportada passivamente; ela é uma forma de descarregar a frustração de não ter conseguido mudar o desfecho.

3) O preconceito e o silêncio em torno do suicídio podem tornar esse processo de luto ainda mais doloroso?

Sim, o preconceito e o silêncio agravam profundamente a dor do luto por suicídio.

Por ser um tema cercado de tabus e estigmas negativos, a morte por suicídio gera barreiras únicas para os enlutados. Em vez de encontrarem acolhimento, familiares e amigos frequentemente enfrentam o julgamento social, a culpa e a falta de sensibilidade.

Esse cenário de incompreensão leva muitas pessoas a se isolarem do convívio social para evitar especulações indesejadas e proteger sua privacidade.

Dessa forma, o silêncio e o preconceito privam os enlutados da rede de apoio necessária, tornando o processo de assimilação da perda ainda mais solitário, complexo e doloroso.

4) O luto por suicídio apresenta características diferentes de outros tipos de luto?

Sim, o luto por suicídio é reconhecido por suas particularidades e por sua grande complexidade.

Como se trata de uma perda inesperada e violenta, o processo de assimilação é especialmente doloroso para os sobreviventes. É comum que os familiares e amigos enfrentem um turbilhão de emoções — como culpa, vergonha, raiva e isolamento social —, além do constante questionamento sobre o que poderia ter sido feito para evitar a tragédia. Por esses fatores, esse tipo de luto exige um olhar cuidadoso e acolhedor, pois pode trazer desdobramentos graves para a saúde física e emocional de quem fica.

5) Como familiares e amigos podem acolher alguém que esteja enfrentando essa perda?

A melhor forma de acolher alguém no luto é oferecer uma escuta empática e sem julgamentos. Muitas vezes, a pessoa enlutada não precisa de conselhos ou opiniões — o peso da perda já é grande demais. O que ela realmente necessita é de um “ouvido amigo”, alguém pronto para ouvir o que quer que ela esteja sentindo.

Para aqueles que preferem silenciar e não expor suas emoções, o mais importante é manter a presença constante: fazer com que saibam que não estão sós e que há pessoas por perto prontas para ajudar no que for preciso para atravessar esse momento desafiador.

6) Em quais situações é importante procurar acompanhamento psicológico ou outro tipo de ajuda profissional?

O acompanhamento psicológico ou profissional é importante em qualquer momento em que a vida passa por transições complexas — sejam elas mudanças positivas ou situações de dor.

* Transições e mudanças de vida: Eventos positivos como a chegada de um filho, um novo emprego ou uma grande mudança também geram ansiedade e incertezas sobre o futuro.

* Processos de perda e luto: Vivenciar perdas, angústias profundas ou sentimentos paralisantes por períodos prolongados requer suporte especializado. O luto impacta famílias inteiras e, muitas vezes, as pessoas se afastam não por preconceito, mas por não saberem como agir sem reabrir feridas.

* Posvenção do suicídio: Para amigos e familiares que enfrentam o impacto do suicídio de alguém próximo, o suporte multiprofissional (posvenção) é fundamental para acolher o sofrimento e auxiliar no processo de reconstrução, embora ainda seja uma área que necessita de mais estudos e visibilidade.

7) Que mensagem você deixaria para quem perdeu alguém por suicídio e ainda está tentando reconstruir a própria vida?

É importante racionalizar que não há um culpado. O fato de perder alguém para o suicídio remete a um luto singular. Há alguns “porquês” que permanecerão sem resposta.

Não sinta culpa em querer reconstruir a vida, isso não significa “superar” ou esquecer, mas aprender a carregar essa saudade sem esse peso doloroso.

Como você gostaria de honrar a vida?

E lembre-se: Você não está Sozinho(a), procure ajuda.

Canais de ajuda:

Centro de Valorização a Vida (CVV) disque 188 ou entre via chat: cvv.org.br
Apoio emocional para jovens de 13 a 24 anos: podefalar.org.br

Polícia Civil e Militar, Centros de Referências Sociais, Corpo de Bombeiros, UPA, UBS, CAPS possuem pessoas especializadas para o primeiro atendimento/acolhimento a pessoas que estão sofrendo psiquicamente com a tentativa de autoextermínio.


Citação pela APA
Ruckert,M.L.T., Frizzo, R.P.,& Rigoli, M.M. (2019). Suicídio: a importância de novos estudos de posvenção no Brasil.
Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 15 (2), 85-91.

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