Última divulgação de pauta identificada pelo Fala São João na página oficial da Câmara no Facebook ocorreu em 2 de dezembro de 2025; documentos continuam disponíveis no site do Legislativo, mas perderam a exposição e o espaço de interação proporcionados pelas redes sociais.
Mais de oito meses sem pautas no Facebook
As pautas da Câmara de São João continuam disponíveis para consulta no site oficial do Legislativo. O que desapareceu, há mais de oito meses, foi a divulgação desses documentos na página da Câmara Municipal de São João da Boa Vista no Facebook — justamente um dos espaços onde a informação poderia chegar ao cidadão antes das votações e estimular o debate público.

No levantamento realizado pelo Fala São João, a última publicação de pauta identificada no Facebook ocorreu em 2 de dezembro de 2025. Nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2026, mais de oito meses depois, a divulgação ainda não havia sido retomada na rede social.
Isso não significa que as pautas tenham deixado de ser públicas. Pelo contrário: elas seguem disponíveis no site institucional e no sistema legislativo da Câmara. O próprio portal mantém uma área destinada às pautas das sessões, e documentos de 2026 podem ser consultados pela população.
A questão é outra: por que uma informação de interesse público deixou de ser levada até onde grande parte da população está?
Do Facebook para o site
Uma publicação feita pela própria Câmara em 11 de fevereiro de 2026 ajuda a ilustrar a mudança na comunicação institucional.
Na postagem, em vez de apresentar pautas ou assuntos que seriam discutidos pelos vereadores, a Câmara publicou uma imagem com a orientação: “Acompanhe as notícias e publicações da Câmara”, indicando em seguida o endereço do site institucional.
Na mesma captura, o Facebook informa que a Câmara Municipal havia limitado quem poderia comentar naquela publicação.
Direcionar o cidadão ao portal oficial não é, por si só, um problema. O site é justamente o espaço institucional adequado para armazenar documentos, atos legislativos, pautas e informações oficiais.
Porém, site e rede social cumprem funções diferentes.
No site, normalmente é o cidadão quem precisa procurar a informação. Nas redes sociais, a informação pode chegar até ele enquanto navega pelo feed, além de permitir compartilhamentos e ampliar a discussão pública.
Eliminar uma dessas frentes significa reduzir o alcance potencial da comunicação.
A mudança atravessou a troca na presidência
O período também coincide com uma importante mudança política no Legislativo sanjoanense.
Em dezembro de 2025, José Urias de Barros Filho, o Carioca, então vice-presidente, assumiu a presidência da Câmara após a saída de Luís Carlos Domiciano, o Bira.
A própria Câmara informou oficialmente que Carioca assumiu automaticamente a presidência até 31 de dezembro de 2026 após uma notificação da Justiça Eleitoral recebida em 17 de dezembro de 2025.
Portanto, a interrupção identificada na divulgação das pautas no Facebook começou ainda antes da mudança formal de presidente, embora tenha se mantido durante toda a atual gestão até o momento.
Hoje, Carioca aparece oficialmente como presidente inclusive nas pautas disponibilizadas pelo Legislativo.
Publicar é diferente de fazer a informação circular
É justamente aqui que está o ponto central desta crítica.
Transparência não deveria significar apenas disponibilizar um documento. Também deveria significar facilitar seu acesso.
Uma pauta legislativa pode revelar antecipadamente discussões que afetam diretamente o cotidiano da cidade: projetos de lei, orçamento público, investimentos, alterações de regras municipais, vetos, convênios, destinação de recursos e inúmeras outras decisões.
Uma das promessas do vereador Carioca era mostrar à população tudo o que acontece na política da cidade. Além de não cumprir essa promessa, a impressão que fica é de que ele tem feito justamente o contrário.
As pautas publicadas no próprio site da Câmara demonstram a relevância dessas discussões. Em junho, por exemplo, entrou em pauta o projeto das Diretrizes Orçamentárias para 2027. Em outras sessões foram analisados convênios, vetos, projetos envolvendo saúde, esporte e diferentes áreas da administração municipal.
São assuntos que dizem respeito ao dinheiro público e à vida da população.
Por que não apresentá-los também nas redes sociais?
Onde ficou o debate?
Quando uma pauta é publicada no Facebook antes de uma sessão, qualquer morador pode encontrá-la casualmente, compartilhá-la, marcar outra pessoa ou iniciar uma discussão sobre determinado projeto.
É possível concordar, discordar, cobrar explicações dos vereadores ou simplesmente descobrir que determinado assunto será votado.
Ao restringir essa divulgação ao site, cria-se uma etapa adicional: o cidadão precisa saber que existe uma pauta, entrar no portal da Câmara e procurá-la.
O documento continua público. A informação, porém, deixa de circular com a mesma facilidade.
E isso importa.
Uma Câmara Municipal não deveria utilizar suas redes apenas como vitrine institucional. Elas também podem funcionar como uma extensão do espaço público de discussão.
E os vereadores nas redes sociais?
A reflexão também precisa alcançar os próprios parlamentares.
Vereadores estão cada vez mais presentes no Instagram e no Facebook. Alguns construíram uma comunicação semelhante à de influenciadores digitais, publicando agendas, visitas, eventos, homenagens, vídeos e ações de seus mandatos.
Nada disso é necessariamente negativo.
Mas a mesma disposição para comunicar deveria aparecer quando o assunto é explicar o que será votado.
Projetos que envolvem impostos, orçamento, investimentos em setores públicos e decisões que podem gerar opiniões divergentes deveriam ganhar espaço nas páginas dos próprios representantes.
A função de um vereador não termina no voto dentro do plenário. Explicar posições, apresentar projetos em discussão e ouvir a população também fortalece a relação entre representante e representado.
O site precisa continuar. As redes também podem informar
O Fala São João não defende a substituição do portal institucional pelas redes sociais.
É justamente o contrário.
O site oficial deve permanecer como fonte primária e permanente dos documentos legislativos. A própria Câmara mantém uma seção destinada às pautas das sessões.
O questionamento é por que não utilizar os dois canais.
Uma publicação simples poderia informar quais projetos estarão em discussão, apresentar o link para a pauta completa e convidar a população a acompanhar a sessão.
O Facebook levaria o assunto até o cidadão. O site ofereceria o documento oficial completo.
Uma ferramenta complementaria a outra.
Informação pública precisa encontrar o cidadão
Mais de oito meses depois da última divulgação de pauta identificada no Facebook, permanece uma pergunta simples:
por que a Câmara Municipal de São João da Boa Vista deixou de utilizar suas redes sociais para divulgar antecipadamente o que estará em discussão no plenário?
Não estamos afirmando que as pautas foram escondidas. Elas estão disponíveis no site.
A crítica é justamente mais simples — e talvez mais importante.
Se existe uma ferramenta capaz de fazer a informação pública alcançar milhares de moradores, gerar comentários, questionamentos e participação, por que deixar de utilizá-la para divulgar aquilo que os representantes da população estão prestes a decidir?
Democracia não se resume à possibilidade de consultar um documento.
Ela se fortalece quando a população sabe que aquele documento existe, entende o que está sendo discutido e encontra espaço para participar do debate.

